
Por: Doris Miranda
Folha da Bahia - Você está sem lançar disco há quase quatro anos, desde Punk Love. Por que uma coletânea agora?
Márcio Mello - Já estava me preparando para fazer um CD novo, mas recebi esse convite da Atração, uma gravadora de São Paulo, a mesma do Adão Negro, e eles me propuseram relançar meus trabalhos anteriores. Mas, como não queria isso, apresentei a idéia de uma coletânea com inéditas porque aí teria minhas músicas antigas lançadas em todo o país. As músicas de Love, que foram todas gravadas novamente no Estúdio Nas Nuvens (RJ), funcionam como uma apresentação para o próximo disco de inéditas, com lançamento previsto para o fim do ano.
FB - Como esta é sua primeira coletânea, o repertório deve funcionar como um panorama de sua trajetória. Como foi o processo de reunir num único CD o repertório de oito discos?
MM- O repertório foi escolhido basicamente pela internet porque tem uma galera enorme que me acompanha pela rede, baixa minhas músicas, troca idéia no Orkut, no blog (www.mmtosco.zip.net). Segui o que o público sugeriu e quando me dei conta tinha umas 25 músicas. Foi difícil reduzir, não pense que foi fácil abrir mão de músicas que a galera pede pra caramba.
FB - No seu site (www.marciomello.com.br), o internauta pode fazer download livremente dos seus discos e agora você está no cast de uma gravadora. Isso não lhe cria problemas?
MM - Nenhum. Estou migrando cada vez mais para a internet. Daqui a uns dois anos só vou existir virtualmente porque não existe mais loja de discos, a internet é o mercado do futuro. Como não sou artista de grande mídia, estou buscando resolver minha vida pela internet, até porque tenho controle de tudo. Não tenho insegurança nenhuma com esse lance de liberar minhas músicas para baixar porque temos duas formas de fazer pirataria: a que é feita pela internet, que é normal, e a outra feita pelas gravadoras, que traem o artista o tempo todo. Artista independente não ganha dinheiro com disco, ganha com show. Quer coisa mais frustrante que tentar vender seu disco numa loja e o cara dizer que só comercializa se você aparecer no Faustão ou na MTV? Para eles, nós não existimos.
FB - Mesmo assim, você assinou com uma gravadora...
MM - Assinei por dois anos, para lançar dois discos. O próximo CD vai sair somente na internet e a gravadora que se vire para arrumar uma forma de ganhar dinheiro com isso. O futuro das gravadoras é morrer porque partimos do pressuposto que todo mundo tem um site e que pode lançar e disponibilizar seu produto na internet. Eles não têm como conter isso. O problema é que eles já não tem como ganhar tanto dinheiro com disco por causa da pirataria, então agora querem controlar a vida do artista. Me defendo disso o tempo inteiro.
FB - De que maneira?
MM - Gravando discos em casa. Não me rendendo à padronização das coisas. Burlando essa ditadura cultural. Não vejo isso mais na minha vida, quero ser livre, ser minha própria gravadora.
FB - Para a turma do rock, sua música soa com influências da axé music. Para a galera do axé, você é rock. Qual é sua identidade musical?
MM - Nunca tive turma musical. Conversava com minha amiga Cássia Eller e ela entendia perfeitamente, vivia essa mesma realidade. Por isso, aprendi a ter personalidade.
FB - No fundo, você soa como rock. Mas há uma alegação no meio underground que seu trabalho é comercial demais, que seu público é formado por patricinhas e mauricinhos...
MM - Todo artista quer ser comercial. Mas as pessoas não entendem que isso não impede de ter identidade. Faço música com a cara do mundo onde vivo. Meu rock, por exemplo, tem a cara da Bahia. Não adianta querer fazer com sotaque inglês, porque não sei. Tenho público da classe A, mas também Z. Aliás, fico surpreso como é que alcanço a classe A. Isso é muito doido.
FB - Você tem interesse na cena poperock baiana? O que anda ouvindo?
MM - Gosto de um cara chamado Sopa, que faz discos em casa e é fantástico. Gosto do CD de Ronei Jorge, do Cascadura, do ZecaCuryDamm e sinto muita falta do meu amigo Mosckabilly (ex-Dead Billies). Temos uma riqueza musical muito grande na Bahia. Mas o que mais me incomoda é o endeusamento que se dá ao rock por aqui. Rock é bestial, não pode ser levado a sério.
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FICHAs
Disco: Love
Artista: Márcio Mello
Produção: Márcio Mello
Gravadora: Atração
Preço: R$20 (nos shows, o CD será vendido por R$10)
Show: Love Nihgts
Artistas: Márcio Mello e DJ Bandido
Local: Portal (Rio Vermelho)
Temporadatodas as sextas-feiras de agosto, sempre a partir das 22h
Ingressos: R$15
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